sábado, 12 de abril de 2014

O emocionante relato de uma mãe sobre o diabetes

Publicado  no blog do Diabético Saudável
Dando início à nossa série de depoimentos de superação, resolvemos postar o depoimento de Marlene Salete Batiston Corrêa, pedagoga aposentada e mãe de Bianca Batiston Corrêa Moribe, diabética tipo 1 há 25 anos, farmacêutica e proprietária da Farmácia Doce Dia. Esperamos que estes depoimentos sirvam como inspiração a todos os diabéticos que desejam lidar harmoniosamente com a sua disfunção, buscando uma vida mais feliz e saudável.
Tudo ocorria normalmente em nossas vidas, quando em meados do mês de novembro de 1988, nossa filha Bianca começou a emagrecer consideravelmente. Aos nossos olhos, porém, e aos palpites dos familiares e avós, parecia ser normal para uma infanto-juvenil de 8 anos, fase em que a criança começa a ganhar altura. Mas, como coração de mãe sempre pressente quando algo errado está acontecendo, não via a hora de entrar em férias para poder acompanhá-la melhor, estar ao seu lado observando-a no dia-a-dia, uma vez que não apresentava febre e se alimentava bem, porém o seu emagrecimento rápido nos preocupava.
  As tão esperadas férias chegaram, e a família decidiu passar alguns dias em uma estância de águas termais no Rio Grande do Sul, e foi nesta viagem que observamos melhor o que estava acontecendo com nossa filha.  Como neste local não havia muita disponibilidade de água mineral comum, mas sim somente de água mineral salobra, meu esposo Antonio não vencia comprar tanta água, pois Bianca tomava litros e litros seguidos, e constantemente queixava-se de muita sede e que sua boca estava sempre seca. Sem falar nas suas constantes idas ao banheiro para urinar, devido ao grande volume de água que tomava. Então, meu esposo começou a desconfiar do possível diagnóstico de Diabetes, porém nada nos falou para não nos preocupar.
Queria ter um melhor acompanhamento para ter certeza, uma vez que nosso trabalho nos absorvia muito e não estávamos ao lado dela as 24 horas do dia. Ela era determinada o suficiente para cuidar de suas necessidades primordiais, como comer nas horas certas e ir ao banheiro quando necessitava, por isso talvez não tínhamos observado antes tais sintomas.
Após um dia repleto de atividades na piscina com seu irmão Felipe e seus primos, notamos que ela começou a ficar “jururu”, e apresentou uma certa dificuldade para andar. Notamos que ela tropeçava constantemente e demonstrava muita fraqueza, então resolvi alimentá-la melhor e, sem saber se estava agindo corretamente, coloquei-a numa rede, dei a ela pêssegos em calda e preparei um lanche bem reforçado para que ela se sentisse mais forte, pois para mim ela estava apenas com uma fraqueza. Após o diagnóstico do médico, soube depois que ela estava entrando em cetoacidose e já estava em jejum metabólico, por isso tamanha fraqueza.
Percebemos que o estado de nossa filha cada vez piorava mais, e nada do que fazíamos resolvia, então resolvemos antecipar a nossa volta (com meu filho bastante contrariado), pois nossa preocupação com a saúde dela era muito grande.
No dia seguinte a levamos ao consultório do médico da família, e ele, ao ouvir nosso relato, categoricamente afirmou que a Bianca estava com diabetes tipo 1. Porém, solicitou alguns exames para se certificar, e no outro dia, ao chamar meu esposo novamente em seu consultório para dar o diagnóstico, tivemos a certeza. Então, ele nos encaminhou para um médico endocrinologista na cidade de Chapecó (a aproximadamente 170Km de São Miguel do Oeste, onde morávamos), pois ainda não existia esta especialidade em nossa cidade, e ela era bastante rara até mesmo em cidades grandes.
De posse dos exames, meu esposo exitava em chegar a nossa casa. Passava várias e várias vezes em frente e não tinha coragem de entrar, e nossa ansiedade só aumentava. Até que ele entrou em casa e nos contou qual foi o diagnóstico. Neste momento, o céu, o sol, a lua, o mundo parece que caíram em cima de nós. Bianca chorava sem parar e só afirmava que não poderia mais comer sorvete, chocolate, não poderia mais tomar refrigerante e comer todos os doces que toda criança adora, e se questionava sobre como seria a convivência com as outras crianças de sua escola. O que diriam de ela não poder comer o mesmo que eles nas festinhas de aniversário e nos piqueniques da escola… Uma enxurrada de perguntas sem respostas começou a cair sobre nós.
Era demais para mim uma criança naquela idade ter que passar por isso. Como?… Se tínhamos mais um filho também criança, e não podíamos fazer distinção entre eles. Naquela época não existia nada diet, a não ser a gelatina (com sabor horrível, diga-se de passagem) e uns sucos em pó que eram bastante amargos. Sem falar nas injeções de insulina que ela teria que tomar… Meu Deus, como foi difícil para nós!
Em sua primeira consulta com o endocrinologista, um médico libanês de uma psicologia e presteza ímpar (jamais o esquecerei, pois ele era bastante firme em seus conhecimentos, transmitia muita confiança em sua linguagem e tinha um pensamento bastante moderno para a época, e para nós isso foi essencial na aceitação da diabetes), nossa filha soube que teria uma vida normal, como qualquer outra criança, e que o seu problema de diabetes não a impediria de crescer saudável e de ter uma vida longa e feliz. Apenas teria que ter um maior cuidado com a sua alimentação, teria que aplicar a insulina nos horários recomendados e monitorar constantemente a sua glicemia.
Como o tempo era curto demais para absorvermos tantas informações em uma consulta, ele nos ofereceu um livro chamado “Diabetes Sem Medo” para que lêssemos e aprendêssemos mais sobre o problema. O livro era um relato do próprio autor, um médico que descobriu ser diabético ao realizar um teste de glicemia por curiosidade. Ele nos ofereceu também outros textos e reportagens sobre os cuidados básicos na aplicação de insulina, sobre a cetoacidose diabética, sobre a importância da prática de atividades físicas pelo diabético e sobre como identificar uma hipoglicemia e uma hiperglicemia.
Bianca ficou internada durante uma semana para monitoramento e regularização de sua glicemia, e no hospital recebeu bastante dicas dos médicos e do pessoal de enfermagem sobre como deveria ser sua dieta, como deveria ser feita a aplicação da sua insulina, e isto foi muito importante para nós.
As primeiras seringas eram de vidro e precisavam ser esterilizadas a cada aplicação. Apenas as agulhas eram descartáveis. Uma mocinha que trabalhava em nossa casa como babá das crianças e morava conosco, e que também fazia curso de Técnico em Enfermagem foi também muito importante para que a Bianca aprendesse a fazer sozinha as suas aplicações de insulina com todos os devidos cuidados de higienização, contribuindo muito para a sua independência. Ela foi maravilhosa e nos dava muita força e transmitia muita tranquilidade, fazendo com que o medo na hora das aplicações fosse minimizado.
Recordo-me que minha apreensão era enorme, e o medo de ficar sem insulina era tamanho (elas não eram vendidas em qualquer farmácia, e em nossa cidade não havia nenhuma que tivesse em seu estoque) que na saída da primeira visita ao endocrinologista em Chapecó comprei logo uma caixa com 12 frascos de insulina (mãe sem experiência , aí já viu!). Quando terminamos o segundo frasco, todos os outros já estavam para vencer dali um mês, então tivemos que doar todos aqueles frascos a um hospital de nossa cidade!
Para os testes de glicose, na época apenas existia aquela fita reagente que media na urina, e nosso médico nos disse que ela somente mudaria de cor quando a glicose no sangue estivesse em pelo menos 180mg/dl. Era muito difícil, pois os testes não eram precisos, e somente quando surgiu o Haemo Glucotest que começamos a fazer os testes com sangue, mas mesmo assim ainda tínhamos que comparar os resultados pelas cores que apareciam no tubo das tiras.
Eram tantas perguntas, tantas dúvidas, tantos telefonemas para o médico, que sempre nos atendeu prontamente… Procurava ler bastante, visitava feiras de livros e produtos para diabetes, e conhecia todos os recursos para o tratamento. Não tinha o que não buscássemos para melhorar o bem estar da nossa filha. As leituras nos ajudavam bastante, uma vez que morávamos longe dos familiares e eles nos faziam falta em vários momentos de nossas vidas. Tínhamos apenas um ao outro e a nossos filhos.
Nosso filho Felipe também participava de nossas angústias e procurava se interar de todos os assuntos relacionados ao diabetes. Numa ocasião em que estávamos no mercado eu e ele, eu disse a ele que escolhesse qualquer doce que ele quisesse, pois a irmã não estava junto, e então não haveria nenhum problema se ele comesse algo com açúcar. Mas ele, em solidariedade à irmã, me disse: “mãe, não precisa, se a Bianca não pode comer, eu também não posso, pois se para ela faz mal, para mim também pode fazer!”. Isto mexeu muito comigo e me emociono até hoje ao lembrar!
Numa ocasião em que encontramos a Bianca em coma hipoglicêmico meu filho foi muito importante para que tudo corresse bem, foi a primeira vez em que a encontramos assim. Meu esposo estava viajando a trabalho, e quando fui acordá-la pela manhã para ir à escola, encontrei-a de bruços, inerte, muito pálida, com os olhos abertos e os dentes e as mãos cerrados. Com muito custo conseguimos abrir sua boca para colocar um tablete de glicose instantânea  embaixo de sua língua. Só me lembro que eu e Felipe a carregamos para o carro, e eu voei para o hospital.
Enquanto isso, meu filho segurava o tablete de glicose na boca da irmã, e ao chegarmos no hospital ainda queriam esperar pelo bioquímico para colher sangue e fazer o exame. Só sei que invadi a copa do hospital, tomei o açucareiro da mão da copeira e corri para o quarto para dar água com açúcar para minha filha. Após ela ter tomado a água com açúcar eu peguei o carro e busquei o aparelho da Bianca, e chegando de volta ao hospital fizemos um teste. Deu 19mg/dl. Então demos a ela mais água com açúcar, e aos poucos ela voltou ao normal. Ela teve várias convulsões e não conseguia falar. Isso nos deixou desesperados. Mas, mesmo assim continuamos a dar o açúcar para ela, até que ela voltou ao normal. Quando o médico chegou no quarto para vê-la, ela já estava sentada na cama rindo! Então o médico me chamou de supermãe!!
Através da convivência com nossa filha ao longo destes anos, das experiências e conhecimentos ganhos, hoje eu posso dizer que somos muito felizes por termos abraçado esta causa, e que nossa filha cresceu feliz, rodeada de pessoas que lhe deram muito amor e carinho, sendo sempre uma criança estudiosa, tanto na área da ciência como na área da música. Ficamos supertranquilos quando ela foi morar no exterior, pois sabíamos que ela era bastante independente, preparada e capaz de cuidar de si mesma. Bianca formou-se em Farmácia,  fez mestrado  e hoje lida com pessoas que têm o mesmo problema que ela. O diabetes não a impediu de ter uma vida normal, e, pelo contrário, somente fez com que ela  se tornasse esta pessoa maravilhosa que é hoje! Sempre preocupada em levar a todos os diabéticos maiores esclarecimentos a respeito deste problema (que nós não consideramos uma doença, mas sim uma disfunção), inspirada naquilo que ela mesma viveu.
O Diabetes nos acompanha há quase 25 anos, e,  graças a ele, passamos a enxergar a vida e o mundo de maneira  diferente.  Sentimos muito orgulho de nossa filha, e acreditamos que o diabetes não a “escolheu” por acaso, pois sua missão é levar o conforto, a tranquilidade e o conhecimento a todos que convivem com este problema que atinge milhares e milhares de pessoas no mundo todo. 
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